terça-feira, 1 de março de 2022

NATÁLIA TAMARA

 


“Roda o tempo e passa Maria”

Letras ao vento, afazeres do cotidiano,
Maria não ler, Maria não escreve.
O vento sopra, Maria roda
A roda viva das gerações ocultas.

A cada batida, a cada “socada”
A natalidade prolifera...
Os anos envelhecem a esperança
Que um dia esteve no olhar de Maria!

Os filhos, a aceitação do patriarcado,
Maria não ler, Maria não escreve!
O tempo passa e gira Maria
Na roda morta das ilusões perdidas.

Letras ao vento, calo nas mãos
Quantas Marias rodam na passagem do tempo?
E quantos pilões socados são silenciados pela amargura?
Roda Maria, Marias rodam na ignorância ignóbil,
Do não saber, do não poder, do não conhecer!
(Natália Tamara)


O poema faz uma alusão a uma produção de Márcio Ramos - Vida Maria, a qual instiga reflexões estilo de vida e o cotidiano de uma família de “Marias” do sertão cearense brasileiro em que várias gerações reproduzem um modo de vida marcado por grande escassez, sem que haja oportunidades de mudanças na vida material, pessoal e profissional, entre outras problemáticas que envolvem a sociedade como um todo.

Natália Tamara Cerqueira da Silva, Graduanda em Letras/Literaturas (UNEB). Técnica em Segurança do Trabalho (FIESC-SENAI), Técnica em Administração e Eventos (IFSC). Ativista cultural. Roteirista. Membro de algumas Arcádias Literárias. Organizadora e Coautora de Coletâneas/Antologias.Fundadora do Grupo de teatro Cultura em Movimento. Membro do Grupo de Pesquisa em Linguagem, Estudos Culturais e Formação do/a Leitor/a - (LEFOR). Coordenadora do projeto Bardos Baianos – Território Sisal e Coautora no território Piemonte da Diamantina.  Detentora de alguns títulos, e prêmios literários. Atuou como Coordenadora de Cultura da Cidade de Saúde/BA.

Publicação autorizada.

 

REFLEXÃO POR TANIA COSTA

 


FILHOS DO CORAÇÃO

Quantos filhos sem pais, quantos pais sem filhos! Essa frase parece bem estranha! Filhos sem pais não deveriam existir, mas infelizmente existem. Pais sem filhos? Como assim? Isso é possível? Perguntas bem lógicas.

Falar em pais sem filhos pode parecer loucura, mas a verdade é que eles também existem. São aquelas pessoas maravilhosas, com muito amor para dar, com um coração cheio de carinho para dar a uma criança, com grandes sonhos para seus pequeninos. Porém, por obra do destino ou de outra forma que queiram chamar, não lhes é permitido terem filhos, mas já são pais por dom, por vezes amam crianças que não são suas até o momento de serem presenteados com a mais pura forma de amar, o amor por um filho. Enquanto isso não acontece vem a tristeza, a decepção, a angústia. Mas sempre há uma solução! Não há caminho que não se possa trilhar, se nele existem pedras lapide-as. Não há problema sem resposta, é com eles que aprendemos a lição. Algumas pessoas pensam que jamais serão pais, e algumas crianças sofrem desejando ter pais que pensam que nunca irão ter.

É nessa hora que a pedra bruta pode virar o mais lindo diamante, é nessa hora que a estrada se revela, que o coração fala mais alto e o problema passa a ser solução.

Existem milhares de crianças abandonadas ansiosas a espera de pais para amar, existem pais transbordando amor para dar a um filho.

E o milagre acontece! Olhares que se cruzam, amor que pulsa nas veias. Uma criança encontra seus pais finalmente! Pais se apaixonam pela mais linda criança que já viram! E assim nascem os filhos do coração. Um parto sem dores físicas, mas carregado por anos de dores emocionais, uma gestação muito sonhada, na maioria das vezes, extremamente longa.

Ter filhos do coração muitas vezes é mais difícil do que ter filhos biológicos, mas com certeza é tão lindo quanto.

Um filho biológico se ama desde o ventre, se educa desde o começo. Mas, e um filho do coração? Mesmo que seja ainda um bebê recém-nascido, trás consigo uma carga genética que os pais de coração não conhecem. E se forem maiores se tornam ainda mais complicado porque trazem consigo experiências de vida, de traumas, de culturas diferentes.

Filhos sem pais quando conhecem pessoas que querem adotá-los, criam expectativas, fantasias, esperança, novos sonhos de serem amados. Pais sem filhos quando conhecem crianças que querem se tornar seus filhos criam planos, projetos, ideias concretas para o futuro.

O que tem de ruim nisso? Absolutamente nada de ruim! Para filhos sem pais, ou pais sem filhos, o que importa verdadeiramente é o sentimento que os une e aproxima a vontade imensa de formarem uma instituição sagrada chamada família. Assim como a pedra bruta se transforma em uma linda pedra preciosa, assim como os problemas tem solução, como toda a estrada leva a algum lugar, este impasse também pode ser resolvido.

Pais sem filhos, não olhem para o problema, não pense na dificuldade futura que talvez nunca venha a existir. Adote seus filhos sem pais que os aguardam ansiosos e cheios de amor. Seus filhos de coração estão à sua espera. Mesmo que pareçam diferentes no primeiro momento, eles serão a sua família, serão aqueles que os ajudarão a crescer e crescerão junto.

Filhos de coração muitas vezes são mais filhos que muito filho biológico.

Já vi casos em que dez filhos biológicos abandonam os pais quando ficam velhos ou doentes e um filho de coração larga sua vida para cuidar dos pais.

Não escolha muito, simplesmente seja pai ou mãe, deixe que seu coração fale mais alto, se permita amar e ser amado.

Filhos de coração, essa é a receita para filhos sem pais e pais sem filhos. E o segredo é único e exclusivamente amor.

PUBLICAÇÃO AUTORIZADA

Tania Costa é escritora desde a adolescência mas conseguiu realizar seu sonho de infância em 2020 quando publicou seu primeiro livro A Fazenda das Borboletas pela Editora UNISV.Nascida em São José do Norte, vinda de família humilde, extremamente tímida, sempre teve muito gosto pela leitura, quando não estava na escola passava horas lendo. É presidente de uma ong que trabalha com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade


CRÔNICA DO MÊS

 


 

"O BRASIL É UM PAIS RICO"

publicado em 08 de maio de 1920

 

Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico.

Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba.

Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro.

É o Brasil rico... Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes.

Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro.

E o Brasil é um país rico. Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam: - Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas? O governo responde:- Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.

E o Brasil é um país rico, muito rico...

As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não têm cavalos, etc., etc.- Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?

O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:

- Não há verba; o governo não tem dinheiro.

- E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.

O Brasil é um país rico."

 

LIMA BARRETO

HISTORIOGRAFIA.

 




As cartas dos viajantes são documentos importantíssimos para a compreensão do início da colonização portuguesa no Brasil. Segundo Sheila Moura Hue em seu livro Primeiras Cartas do Brasil (1551-1555), elas são relatos sobre o primeiro momento da chegada dos colonizadores em nosso território e constituirão o objeto desse projeto.

Devem ser analisadas a partir dos aspectos retratados em seu conteúdo, como natureza, cotidiano, trabalho e cultura no Brasil do início do século XVI. A partir da análise desses elementos serão discutidas as visões que os viajantes foram construindo dos índios e do “novo mundo”, e as intenções camufladas nessas construções. Carlos Fausto também em sua obra comunga dos mesmos pensamentos e ideias no livro Os índios antes do Brasil. Em contato com essas fontes, vai compreender como se deu essa construção, participando do processo de produção do conhecimento e se sentindo motivado a progressivamente construir a sua própria versão com criticidade.

Os colonizadores portugueses e espanhóis vieram para as terras americanas financiados por reis católicos. Esses colonizadores entraram em contato com os índios e ficaram perplexos: eram povos de costumes radicalmente diferentes dos europeus, com sua própria cultura. Como resultado desse contato vai surgir o preconceito e a revolta dos colonizadores para com os índios.

Todavia, segundo o antropólogo Carlos Fausto não se pode generalizar, um único julgamento que os europeus fizeram dos índios. Os espanhóis queriam construir um império no novo continente, o que implicou uma estratégia de destruição desses povos da região depois conhecida como América hispânica. Os franceses e holandeses, também participaram, mesmo que em menor proporção, do processo de colonização. Entretanto, cabe aos portugueses o maior destaque na colonização do nosso território.

Eles chegaram às terras do “novo mundo” com o objetivo de acumular riquezas a partir da exploração dos recursos naturais. O contato com os povos nativos aconteceu, primeiramente, com a extração do pau-brasil e na produção do açúcar na segunda metade do século XVI. Esse contato vai causar guerras e conflitos na disputa pelo território.

Carta ao rei D. Manuel, comunicando o descobrimento da Ilha de Vera Cruz

As narrativas sobre esse “novo mundo” foram se multiplicando com esses contatos, na visão da Sheila Moura Hue, doutora em Literatura Portuguesa, os relatos dos viajantes vão descrever os costumes dos ameríndios, o processo de catequização, o cotidiano na colônia, aspectos da fauna e da flora, da cultura e trabalho no Brasil do século XVI.

O primeiro a narrar a história primitiva do país foi Pero Vaz de Caminha, em carta que enviou a D. Manoel I, Rei de Portugal, quando encontrou a Terra de Santa Cruz.

Publicação autorizada.



Alessandro Lopes Silva, natural de Teresópolis/RJ. Graduado em História pela Universidade Norte do Paraná, é membro da Academia de Letras do Brasil-Teresópolis. Autor de vários artigos é do livro "Contos do interior lendas do Brasil". Colunista da REVISTA DE HISTÓRIA AMNÉSIA há sete anos já participou de várias antologias entre elas coletânea 50 vozes do Brasil 1,2,3.


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